16 abr

Esse é um post de despedida.

Antecipar a notícia que está no forno antes de o cheiro chegar em todos os lugares foi uma das maiores delícias dessa viagem. Ainda mais prazeiroso, no entanto, é perceber que 99 dias são tempo suficiente pra ver algumas das descobertas ganharem relevância mundial antes mesmo da viagem acabar.

Se vocês gostaram da história da Guerrilha do Crochê, por exemplo, saibam que não só acaba de ser lançado um livro incrível com os 101 “knits” mais espetaculares do mundo como também está sendo rodado um documentário sobre  história desse movimento. Os blogs tanto do livro quanto do documentário podem ser lidos aqui e aqui, e o livro pode ser comprado por aqui tanto impresso quanto para Kindle.

Não escolhi esse tema pra me despedir à tôa. Tenho que adimitir que fico especialmente emocionado por esse documentário. Não somente por considerar que o Knit Graffiti, Yarn Graffiti ou seja lá o nome que quiserem usar seja encantador, mas principalmente porque acredito que ele seja talvez a grande metáfora das descobertas da viagem.

Eu tenho falado muito do poder das redes sociais para unir pessoas interessadas em uma atividade comum, dispostas a fazer dessa semelhança o trampolim para a construção coletiva de algo autêntico, transformando o espaço público em palco de registro de algum “pequeno grande ato” que depois vai voltar pra rede, ser compartilhado com o mundo inteiro e atingir cada vez mais pessoas. Percebi ao longo do tempo que esse tipo de movimento se transforma também na inspiração para um verdadeiro modelo de negócios, que muita gente chama de crowdsourcing, em que se percebe que a multidão não é assustadora, mas sim acessível, criativa, e desejosa de colaborar com aquilo que a encanta.

É muito significativo que o próprio documentário seja realizado por crowdfunding, através de plataformas como o IndieGoGo, onde pessoas com grandes ideias podem encontrar pessoas apaixonadas por essas ideias e dispostas a dar o seu dinheiro para um projeto assim. Sites desse tipo estão pipocando por todos os lado, em verdadeiras associações coletivas de criatividade, como o Kickstarter, cujo nome é de um poder de síntese maravilhoso, e o brasileiro Multidão. Mas antes que alguém diga que isso não tem absolutamente nada de novo e é simplesmente uma “vaquinha digital”, eu digo que é, sim, reflexo de um novo comportamento, resumido brilhantemente numa frase só por James Wilkinson:

“When people love something, they begin to own it”

Isso não é bobagem. É o que aconteceu com os muros de Mumbai depois do começo do The Wall Project, por exemplo. E sabem quem é o James Wilkinson? É um dos idealizadores de mais um projeto símbolo do tempo que estamos vivendo. Primeiro eles dividiram o filme Star Wars em vários seguimentos de 15 segundos. Depois lançaram uma chamada na rede para que os fãs refilmassem caseiramente cada um dos trechos. Depois que todos os trechos estavam filmados, foi só juntar as melhores versões de cada um e fazer um filme só (Star Wars Uncut) num tipo de iniciativa que ele chamou de Open Source Film e que recebeu ano passado o Emmy Award for Outstanding Creative Achievement in Interactive Media.

Soa familiar? Open Source Film é o mesmo nome do projeto de Michael Beets que vi em Shanghai, em que ele tentava colocar as colaborações de cada espectador dentro de um monólogo apresentado por skype por uma atriz do outro lado do mundo, em Nova Iorque. Uma coincidência que só reforça o papel fundamental desempenhado pela necessidade de trazer as pessoas para dentro das iniciativas no nosso mundo, outro tema recorrente das minhas postagens, em exemplos tão variados quanto as User Generated Cities do Urbz, as pop-up stores, restaurants e shoppings, festas secretas, Secret Cinema e festivais como o Burning Man. Todos exemplos do espírito imersivo do nosso tempo, em que a experiência vale muito mais do que um bem. “Mergulhe, se lambuze, e depois me conte como foi”. Isso é muito mais do que um título de post. É o carpe diem compartilhativo do nosso tempo.

Como eu disse no começo, esse é um post de despedida. Do blog, da viagem, e de um emprego. Mas não das descobertas e novidades. O 99 novas não é um projeto que diz “adeus”. É um projeto que diz “bem vindo” a tudo de inspirador e influente que está nascendo no mundo. Nunca encontrei essa citação, mas certa vez uma pessoa me disse que José Luís Borges escreveu que “o futuro, antes de acontecer, realiza ensaios. A esses ensaios damos o nome de sonhos”. Durante 99 dias, conheci pessoas que dedicaram sua vida a esses ensaios abertos. Espero ter colaborado de alguma maneira para aumentar a plateia de todos eles. Terminada a viagem, o circense aqui só tem mais uma coisa a dizer:

“Tenham todos um bom espetáculo”


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15 abr

San Francisco Underground Short Film Festival – God Bless Underground America

  • Categoria:9. SÃO FRANCISCO
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Essa foi pra fechar com chave de ouro. Foi aqui que eu passei a última noite da viagem, e onde finalmente me convenci do quão sensacional é a cena artística de São Francisco. Um festival independente de curta-metragens todo realizado com produções locais, da Baía de São Francisco. Sensacional. Pesado. Sutil. Delicado. Trash até o talo. Todos esses adjetivos podem ser usados sem medo de ser feliz pra descrever o que aconteceu no Victoria Theater essa noite.

Personagens andando no meio do público, intervenções não-ortodoxas no palco, banda ao vivo e uma plateia mega participativa. Tudo que a festa precisava além de uma dupla de apresentadores ímpares: Peaches Christ e Sam Sharkey. Já antes das projeções, uma grávida circulava entre as cadeiras com um headphone enquanto perguntava se alguém queria assistir a um filme. Quando eu disse que sim, ela chegou perto, colocou o fone no meu ouvido e me mandou olhar no olho mágico (!) que ficava no meio sua barriga (!!!). E de fato tinha um filme sendo exibido ali dentro. Uma animação feita com dedos pintados como se fossem gente, muito boa por sinal.

Agora vamos ao curtas.

Esse tem um sabor especial pra mim, por duas razões. Primeiro porque eu sou do circo. Segundo, porque no dia que recebi a notícia de que tinha ganhado o 99novas eu estava recebendo cinco palhaços na minha casa. Sem mais delongas, “PUNCHLINE”.

Esse é o meu favorito. Um achado, uma pérola, algo que eu não sei como atingiu quase 30 milhões de visualizações e eu nunca ouvi ninguém falando a respeito. Ele é um dos quatro filmes da série “Tales of Mere Existence” exibidos na noite, e o meu escolhido porque nada chega tão perto de mostrar como é que eu me senti ao longo da viagem quando me sentava pra escrever em frente ao computador.

Ao final do festival eu virei tiete do cara, comprei livro, pedi autógrafo, tirei foto e o escambau, mas acima de tudo, trouxe comigo dois DVDs dessa mesma série. Não deixem de assistir também aos episódios “The Loner”, “Times I Tried To Be A Womanizer” e “How To Be A Man?”.

Infelizmente, embora estejamos na era do YouTube, a maioria dos filmes do San Francisco Underground Short Film Festival não está disponível na rede ainda. Isso me impede de mostrar a vocês pérolas como “Milk Man” de Max Sylvester (que arrancou gritos emocionados da plateia com um grau de tosqueria que eu não me sinto capaz de expressar), “Something Special” de Brian Benson (uma mistura de sátiras, mal gosto e até surpreendentes momentos de asco profundo que me fez rir de passar mal) e “7 Minutes in Hell” de Alexa Fraser-Herron (um thriller de zumbis muitíssimo escrachado em 4-D, com atuação sincronizada tanto na tela quanto nas cadeiras). No entanto, nada disso me impede de recomendar canais como o da produtora Scary Cow, no Vimeo, onde vocês podem ver mais de 140 filmes produzidos apenas por realizadores locais.

Se algum desses curtas lhes deixou interessados na cena de São Francisco, saibam que  por aqui tem MUITO mais. Agora, se não gostaram de nada, mas nada mesmo, não venham aqui tão cedo. É esse o espírito do underground, que, ao mesmo tempo que brinca sem medo de ser cruel, carrega o que de mais inovador e ousado se pode ter no cinema, apontando os caminhos de onde vão surgir os grandes realizadores do futuro (ou pelo menos as ideias que os grandes realizadores do presente aproveitam pra continuar fazendo o sucesso que fazem). God Bless Underground America.


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14 abr

Às vezes, sentado na cadeira de um café, a gente pode ir muito mais longe do que com um dia inteiro de caminhada. Tudo depende de quem é o seu interlocutor. No meu caso, pela segunda vez nessa viagem, ele era James Hunusa.

Começando pelo que nos afeta mais diretamente, nossa conversa se deu 15 minutos depois de James sair de uma reunião no Consulado Brasileiro. O que ele estava fazendo lá? Fechando um acordo que faria de Rio de Janeiro e São Francisco cidades irmãs em cultura e sustentabilidade. A partir de agora, começa uma grande troca de conhecimento e experiências com relação às iniciativas que deram mais certo nessas áreas em cada uma das cidades, o que vem muito a calhar no ano que antecede a Rio 2012 (ou Rio+20) – a reunião da Organização das Nações Unidas para o desenvolvimento sustentável que deve atrair quase tanta gente pro Brasil quanto Copenhagem atraiu dois anos atrás.

Se essa troca já pode ser por demais frutífera, que dizer da parceria que acaba de ser firmada, nessa mesma reunião, entre o Burning Man e o Carnaval do Rio de Janeiro? Todo mundo sabe do quão explosivo foi (e continua sendo) o renascimento do carnaval de rua no Rio, e de como a nossa falta de preparo para lidar com um fenômeno dessas proporções aumenta significativamente o seu impacto negativo. Bem, o Burning Man consegue construir uma cidade para 50 mil pessoas no meio do deserto de maneira a não só garantir a sobrevivência e segurança de cada um mas também o transformação do evento num grande caldeirão de criatividade de onde brotam algumas das ideias mais inspiradoras do ano. Já pensaram no que poderia acontecer se a gente juntasse esse know-how com a explosão de cratividade que o carnaval de rua brasileiro pode proporcionar? Algo de sensacional pode estar pra nascer.

Mas as novidades não param por aí. O Burning Man anunciou também, há bem pouco tempo, que vai mudar a sua sede para o centro de São Francisco, numa região da Market Street relativamente abandonada, tida de certa maneira como culturalmente morta. E sabem quem está se mudando com eles? O Twitter. James me disse que já consegue visualizar a atmosfera inovadora que vai tomar conta do ambiente, e acredita que a transformação do local em um distrito artístico e criativo vai atrair ainda mais mentes inovadoras para cá, além de sublinhar a relevância do novo modelo de negócios que já dá a tônica na criação dos produtos dessas empresas.

Esse modelo é o do Angel Investitor no lugar do Venture Capitalism.

O modelo de negócios tanto exemplifica a incorporação do usuário no desenvolvimento criativo de uma empresa, como também implica numa arquitetura financeira diferente da tradicional. O mais importante a entender, no entanto, é a noção de que, com a progressiva e contínua queda nos custos para se iniciar um negócio, o foco das apostas dos investidores não estará mais diretamente num produto, mas sim numa ideia. Esses Angel Investitors são pessoas que apostam em ideias quando elas ainda estão no começo (o que os aproxima consideravelmente a um trend hunter com dinheiro) e acompanham o processo pelo qual elas se aperfeiçoam a partir dos insights dos usuários.

Hoje em dia, não se tem mais tanto tempo para passar um ano inteiro desenvolvendo pesquisa pra criar um produto, com a necessidade de grandes somas de dinheiro durante todo o processo e um alto risco envolvendo a sua receptividade no mercado. Ao invés disso, as empresas de software, por exemplo, recorrem a pequenos financiamentos com parceiros de menor porte para lançar produtos criados quiçá em um mês, que se disseminam rapidamente e depois passam a receber atualizações já baseadas no feedback dos usuários no período de uso da versão inicial. Entre dois períodos de atualização, o sucesso da versão corrente já paga o desenvolvimento da versão seguinte.

Do feedback de usuário pro crowdsourcing é só um pulo e uma questão de tempo. Mas disso eu falo num próximo post.


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13 abr

Urban Homesteading – Faça de sua casa a mudança que você quer para o mundo

  • Categoria:9. SÃO FRANCISCO
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Eu já tinha ouvido falar, quando estava em Nova Iorque, de urban farming e window gardens, ambas iniciativas de gente interessada em cultivar a própria comida dentro de casa. Em Shanghai, eu também tive a oportunidade de conversar com a Susan Evans, que é fundadora de um grupo chamado goodtochina e está trabalhando para criar algumas Green Zones pela China. Nessas áreas, todas dentro das grandes cidades, seriam construídos desde jardins verticais e rooftop gardens (verdadeiras hortas nas lages dos Edifícios) aos window gardens hidropônicos que tanto se vê em Nova Iorque.

(Brooklyn Grange, que apesar do nome é no Queens)

Toda essa história está crescendo muitíssimo, de modo que não foi tão surpreendente saber que naquele mesmo dia Susan estaria ligando para o Brasil pra tentar levar a experiência de China e Nova Iorque para as nossas cidades. No entanto, ainda me parecia que pensar essas iniciativas meramente como algo ligado à questão alimentar ou ao “faça você mesmo” era pouco. Eu não tinha me convencido que a história era só o que eu estava vendo, e segurei esse assunto a viagem inteira, esperando a hora de entender o que estava acontecendo mais a fundo.

Foi aí que, finalmente, no Green Festival de São Francisco, tudo fez sentido. Eu assisti à palestra da Rachel Kaplan, que acaba de lançar um livro chamado “Urban Homesteading – Heirloom Skills for Sustainable Living”, em que não só demonstra por que esse é um movimento transformador e poderoso como tambem compila experiências de moradores de toda a área da Baía de São Francisco para convidar cada leitor a se engajar nessa aventura que é experimentar um novo estilo de vida.

Ao pé da letra, Homesteading significa “tornar sua casa estável”, e abarca todo tipo de iniciativa voltado a transformar a própria casa no microcosmo da mudança que se deseja no mundo, especialmente do ponto de vista ambiental. Pra mostrar que cada um pode se comprometer com uma grande causa permanecendo exatamente onde está,  os Homesteaders desenvolvem soluções simples e baratas para tirar muito mais do espaço de uma casa do que costumamos imaginar, por caminhos que envolvem desde plantar a sua própria comida até criar galinhas que vão fertilizar o solo para que outros bichos decomponham os dejetos do seu lar.

A gente pode até estranhar o “estável” no lugar de “sustentável”, mas quando a saímos da unidade da casa e percebemos que o movimento também quer construir uma comunidade, podemos entendê-lo melhor. A questão não é só pegar o seu quintal e transformá-lo na sua horta pra comer a sua comida junto com os seus filhos. Cuidar da própria alimentação é importante? Claro! Mas o Homesteading busca também que os avanços desenvolvidos por uma pessoa possam ser disseminados pela comunidade em que ela vive. Se a ideia é criar estabilidade em lugar de insegurança, “resilience” no lugar de fragmentação, e autossuficiência sustentável no lugar de consumismo irresponsável, a vida em comunidade aparece realmente como a melhor alternativa disponível.

Tudo isso é interessante, mas se eu tivesse que eleger uma razão apenas para escrever sobre esse assunto, ela seria a percepção do momento em que alguém passa do “What is” pro “What if”. Toda essa gente está insatisfeita com o estado das coisas, com o impacto social e ambientalmente negativo das cadeias de produção com que se envolvem ao comprar seus produtos, com a maneira ainda limitada com que lidamos com a vida das coisas depois de elas terem servido à sua finalidade original. Tudo isso é legítimo, e parte do “What is”.

O “What if” aparece quando alguém diz: Hey, e se, ao invés de pressionar grandes corporações internacionais a mudar suas políticas no mundo inteiro, nós tomássemos nas próprias mãos a tarefa de criar um pequeno mundo sustentável em nosso entorno? E se nós decidíssimos mostrar que viver de uma maneira mais simples não é viver de uma maneira menor? E se, ao invés de continuar comprando tudo isso que compramos e apenas colocar as embalagens para reciclar, nós produzíssemos localmente a nossa comida e levássemos ao extremo a ideia de que o lixo de um é comida pro outro a ponto de criar casas que reaproveitam nossos dejetos e não geram lixo nenhum?

São Francisco está cheio de “What if”s. Se são eles que ditam nossas maiores criações e o nosso futuro, eu não poderia deixar uma iniciativa tão repleta deles de fora do blog. Recomendo também a leitura dos textos disponíveis aqui, aqui, aqui e aqui. Definitivamente relevantes.


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